Inspirado em reportagem da BBC
Existe uma frase que Gianni Infantino, presidente da FIFA, nunca disse publicamente, mas que resume bem sua gestão: se está quebrado, aumente.
O Mundial de 48 seleções estreou em 2026 com uma promessa de grandiosidade: mais países, mais jogos, mais receita. O problema é que o futebol, ao contrário de uma planilha financeira, não escala bem. E as primeiras rachaduras já aparecem na fase de grupos.
O formato criou uma situação que qualquer torcedor percebe intuitivamente como errada: é mais fácil avançar do que ser eliminado. Com oito das doze terceiras colocadas garantindo vaga, basta não fazer feio para seguir em frente. O drama que tornava a Copa do Mundo irresistível, aquela sensação de que qualquer tropeço pode ser fatal, foi diluído por matemática corporativa.
E pior: o formato abre espaço para combinados. Nesta semana, Austrália e Paraguai, depois Áustria e Argélia, entram em campo sabendo que um empate pode bastar para as duas equipes avançarem. Os apostadores já precificaram isso: as odds para empate nessas partidas estão próximas de 1 para 1. O mercado, cínico que é, entendeu antes da imprensa o que pode acontecer.
Não é coincidência que a FIFA conhece esse problema há décadas. Em 1982, Alemanha Ocidental e Áustria protagonizaram um dos episódios mais vergonhosos da história do futebol, o "Disgrace of Gijón", como ficou conhecido. Uma vitória por um gol eliminaria a Argélia. A partida terminou 1 a 0 para os alemães. O placar perfeito, encaixado com uma tranquilidade suspeita. A Argélia foi para casa. A FIFA mudou o regulamento para que as últimas rodadas fossem simultâneas. Lição aprendida.
Ou não. Porque em 2026, a Argélia pode se beneficiar exatamente do mesmo tipo de situação, quarenta e quatro anos depois, do outro lado da equação.
Isso não é detalhe técnico. É uma falha estrutural que a FIFA escolheu ignorar para viabilizar um número que não fechava de jeito nenhum. Quarenta e oito equipes não se divide limpo em grupos de quatro. A solução foi gambiarrar o formato e torcer para que ninguém combinasse resultado.
Mas a lógica do crescimento infinito não é exclusividade da FIFA. A NBA expandiu de 23 para 30 franquias desde os anos 1980, diluindo talentos e enchendo o calendário de jogos que não importam. A NFL cogita jogos regulares na Europa. A Champions League reformulou seu formato em 2024 para incluir mais clubes e mais partidas, com jogadores exaustos reclamando abertamente. A Fórmula 1 chegou a 24 etapas na temporada, um absurdo logístico e dramático que esvazia o peso de cada corrida.
O padrão é o mesmo: mais produto, menos significado. Cada partida extra que é adicionada a um calendário retira um pouco do peso das outras. É uma inflação esportiva: quando tudo é importante, nada é.
No caso da Copa do Mundo, o produto era quase perfeito. O torneio de 32 seleções tinha a tensão certa, o recorte certo, a crueldade necessária. Um empate que eliminava um grande. Um erro que mandava um favorito para casa. Era exatamente essa brutalidade que fazia o mundo parar a cada quatro anos.
O atual presidente da FIFA foi eleito em 2016 com um manifesto de expansão. O Mundial de 48 foi a promessa central. E agora, diante das primeiras críticas ao formato, a resposta que circula nos corredores da FIFA é reveladora: por que não ir a 64?
A lógica é impecável dentro de sua própria loucura. Se 32 funcionava bem e 48 gera problemas, o próximo passo óbvio é dobrar de vez. Mais grupos, mais receita, mais transmissões, mais patrocinadores. O futebol como ativo financeiro em expansão permanente.
O problema é que ativos financeiros não precisam emocionar ninguém. Copas do Mundo, sim.

Esporte
Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.