Iniciativa em Santa Catarina já retirou 75 toneladas de cabos irregulares dos postes, gera renda para famílias e abastece a indústria siderúrgica com material reciclado
Foto: Divulgação/Celesc
O problema dos fios clandestinos e cabos abandonados nos postes, que se tornou uma preocupação crescente em cidades de todo o Brasil, está ganhando uma solução que une segurança, sustentabilidade e impacto social. Em Santa Catarina, um modelo adotado pela Celesc já retirou cerca de 75 toneladas de cabos excedentes e irregulares das redes urbanas e transformou o material em fonte de renda para cooperativas e matéria-prima para a indústria do aço.
A iniciativa, considerada uma referência de economia circular, começa com as operações de fiscalização e limpeza da rede elétrica. Após a retirada dos cabos sem uso ou instalados irregularmente, o material é destinado a cooperativas de reciclagem, evitando o descarte em aterros e atendendo às diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Uma das beneficiadas pelo programa é a cooperativa Reciclavale, de Itajaí. O material recolhido pela Celesc é separado e preparado pelas cooperadas, que encontram na atividade uma importante fonte de sustento.
Segundo a presidente e fundadora da cooperativa, Marli das Dores Martins, a parceria tem impacto direto na vida de dezenas de famílias. "Esse resíduo é o que garante a nossa sobrevivência, pagando as contas da semana e mantendo a cooperativa ativa. Por isso, inclusive, nossas cooperadas olham para a Celesc com orgulho e dizem que é a nossa empresa."
Atualmente, a cooperativa conta com 16 colaboradores diretos e gera impacto indireto para cerca de 30 famílias da comunidade.
Além dos cabos, móveis antigos e fora de uso da companhia também são recuperados pelas cooperadas e destinados a casas de recuperação, igrejas e famílias em situação de vulnerabilidade.
Após a triagem realizada em Itajaí, os cabos seguem para a empresa Soffer Sucatas, em Tijucas.
No local, um equipamento industrial realiza a separação entre plástico, borracha e metais presentes nos cabos, permitindo que os componentes metálicos retornem ao ciclo produtivo.
De acordo com a administradora da empresa, Katrini Vicente Ventura, o processo garante que o material seja reaproveitado pela indústria. "Realizamos a separação rigorosa das impurezas e a classificação dos metais. O material deixa de ser um resíduo bruto das ruas e se transforma em matéria-prima limpa e altamente preparada para abastecer a siderurgia."
A operação movimenta diretamente 12 funcionários registrados e cerca de 21 colaboradores indiretos na região.
Após o processamento, os metais seguem para os fornos elétricos de uma das maiores multinacionais do setor metalúrgico instalada no Brasil.
O material é derretido e transformado em aço utilizado na fabricação de vergalhões, perfis metálicos, chapas e arames empregados em obras de infraestrutura e construção civil em diversas regiões do país.
O reaproveitamento reduz a necessidade de extração de novos recursos naturais e fortalece uma cadeia produtiva baseada na reciclagem.
O avanço da ocupação irregular dos postes tem levado municípios de diferentes regiões do Brasil a intensificarem ações de fiscalização e remoção de cabos abandonados.
Para o gerente de telecomunicações da Celesc, Eduardo Marcussi, a experiência catarinense mostra que é possível transformar um problema urbano em uma oportunidade social e ambiental. "A retirada do cabeamento em excesso ou irregular resolve uma equação complexa de engenharia e segurança que hoje aflige cidades em todo o Brasil. Ao transformarmos esse problema em um ativo de valor social, abrindo mão do retorno financeiro em prol de cooperativas locais, criamos um ciclo de triplo ganho."
Segundo ele, o modelo demonstra que é possível melhorar a organização urbana, gerar emprego e renda e ainda fornecer matéria-prima para a indústria nacional.
Outra iniciativa que vem ganhando destaque é a da CPFL Energia, que mantém uma unidade especializada na recuperação de equipamentos elétricos em São Paulo.
A estrutura amplia a vida útil de transformadores, religadores e reguladores de tensão por até 20 anos. Os materiais que não podem ser reaproveitados seguem para processos de reciclagem de cobre e alumínio, reduzindo custos e emissões de carbono.
O exemplo reforça uma tendência crescente no setor elétrico: transformar resíduos e equipamentos em fim de vida útil em novos recursos para a economia, reduzindo impactos ambientais e ampliando benefícios sociais.
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