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GERAL
08/08/2026 13h28
Por: Letícia Matos

Do carvão ao futuro: a corrida industrial que já começou

No Sul de Santa Catarina, uma cadeia que movimenta R$ 6 bilhões busca transformar cinzas em novos produtos, qualificar trabalhadores e encontrar alternativas para continuar gerando energia depois de 2040

Complexo Termelétrico Jorge Lacerda. Foto: Divulgação/Diamante Energia

O futuro da cadeia do carvão catarinense pode estar justamente naquilo que ela deixa para trás.



As cinzas que saem das caldeiras do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo, já abastecem a indústria do cimento. Nos laboratórios, começam a ser transformadas em zeólitas, materiais que podem capturar carbono e liberar fertilizantes gradualmente no solo. Outros estudos avaliam o aproveitamento dos gases da combustão e até a extração de terras raras.



Ao mesmo tempo, a Ferrovia Tereza Cristina procura transportar mais cargas além do carvão. Trabalhadores veteranos se aposentam, novos operadores são preparados e a Diamante Energia analisa três alternativas para produzir eletricidade na área do Complexo depois de 2040.



A data representa o limite atual da contratação da geração a carvão e impõe uma corrida contra o tempo. Nos próximos 14 anos, Santa Catarina precisará transformar pesquisas em negócios, diversificar a economia regional e preparar trabalhadores e municípios para uma indústria de menor carbono.



O desafio não termina nos portões da usina. A cadeia reúne minas, ferrovia, geração de energia, fornecedores e indústrias consumidoras das cinzas. Segundo estimativa da Diamante, está relacionada a cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos e movimenta aproximadamente R$ 6 bilhões por ano na economia catarinense.



Mais do que substituir uma fonte energética, a transição no Sul do estado terá de preservar conhecimento, renda e capacidade industrial.



O tempo de uma carreira



A dimensão humana dessa transformação aparece no encontro entre duas gerações.



Rui Cesar das Neves aposentou-se no início de 2026, aos 59 anos, depois de trabalhar por 39 anos no Complexo. Alciones Delmar da Silva, de 43, atuava havia nove anos no local como prestador de serviços em Tecnologia da Informação e foi contratado há cerca de três meses pela Diamante como Operador Usina I.



No último dia de trabalho, Rui vestiu o uniforme, colocou o capacete e voltou à sala onde passou boa parte da vida profissional. Antes de ir para casa, deixou uma recomendação à equipe da UTLB, unidade onde trabalhava desde 1989: “Continuem cuidando bem da nossa casinha”.



Rui havia chegado à antiga Eletrosul aos 20 anos. Passou por dois anos de treinamento e começou como operador de área. Depois, exerceu diferentes funções até chegar à supervisão, cargo que ocupou por 26 anos.



“Eu sabia que aquilo era uma tábua de salvação. A empresa me deu condições de crescer e oferecer uma vida melhor para a minha família”, recorda.



Agora, o conhecimento acumulado por profissionais como Rui precisa ser transmitido a quem assume a operação.



Alciones concluiu o curso técnico em Automação Industrial e a formação de Operador de Usina, ambos pelo SENAI. Depois da contratação, passou por treinamentos internos e começou a aprender a nova função com trabalhadores mais experientes.



“Chamaram minha atenção a quantidade de conhecimento técnico presente no dia a dia e a disposição dos colegas em compartilhar experiência”, afirma.



A Diamante possui 390 empregados diretos e recebe diariamente cerca de mil trabalhadores no Complexo, considerando também as equipes de empresas parceiras.



O presidente da companhia, Pedro Litsek, diz que a renovação do quadro já integra a estratégia empresarial.



“Temos muitas pessoas com vários anos de casa começando a se aposentar. Estamos renovando esse grupo e investindo em treinamento junto ao SENAI, patrocinando cursos e recebendo estagiários”, afirma.



A empresa também prepara um programa de trainees.





Esq. Rui Cesar das Neves. Foto: Arquivo Pessoal | Dir. Alciones Delmar da Silva. Foto: João Batista Luciano



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Energia firme em uma matriz renovável



Com 740 megawatts de capacidade instalada e geração média contratada de aproximadamente 380 megawatts, o Complexo Jorge Lacerda produz energia controlável, disponível independentemente das condições de chuva, vento ou sol.



Essa característica ganha importância à medida que fontes renováveis variáveis ampliam sua participação na matriz elétrica.



“A gente acredita muito nos conceitos de segurança energética e de despachabilidade dos nossos ativos. Esse é o grande foco da companhia hoje”, explica Litsek.



O presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável, Fernando Luiz Zancan, estima que a continuidade da operação até 2040 deverá demandar cerca de R$ 2 bilhões em investimentos.



A dimensão do emprego varia conforme a metodologia. A estimativa da Diamante, de cerca de 20 mil postos diretos e indiretos, considera os efeitos de toda a cadeia. A equipe técnica do Plano Estadual de Transição Energética Justa identificou 3.331 trabalhadores em dados de 2024, formados principalmente por vínculos diretos na mineração, ferrovia e geração.



Os números medem universos diferentes, mas a distância entre eles revela uma dificuldade para o planejamento: antes de proteger os empregos, será preciso definir quantas pessoas e atividades dependem da cadeia.



Trilhos em busca de novos caminhos





Foto: Divulgação/FTC




A transformação também passa pela ferrovia que leva o carvão das minas até o Complexo.



Em 2025, a Ferrovia Tereza Cristina transportou 3,08 milhões de toneladas. O carvão respondeu por 82% do volume e por 94% da receita operacional.



A dependência ainda é elevada, mas a diversificação começou. A carga geral em contêineres alcançou 566,6 mil toneladas, equivalentes a 18% da movimentação anual.



A FTC reúne cerca de 300 trabalhadores, entre diretos e terceirizados. Aproximadamente 95 atuam em operações relacionadas ao carvão. Mais de 285 empresas fornecem produtos e serviços à companhia.



A empresa reconhece que uma redução gradual do transporte do mineral diminuiria as atividades ferroviárias e exigiria requalificação profissional. Por isso, prospecta novos negócios e estuda a construção de um terminal para carga geral, além de novas instalações e equipamentos.



Um dos obstáculos é o isolamento da malha em relação ao sistema ferroviário nacional, o que aumenta os custos de transbordo. Por outro lado, a conexão com os portos pode ajudar a atrair novas indústrias para a região.



A diversificação também mudará o perfil profissional. Análise de dados, internet das coisas, manutenção preditiva, cibersegurança, sistemas autônomos e inteligência artificial aparecem entre as competências consideradas necessárias para a ferrovia do futuro.



Segundo a FTC, praticamente todo o quadro participou de alguma capacitação nos últimos cinco anos.



Quando o resíduo vira produto



A economia circular é uma das frentes mais concretas da transformação do Complexo.



Entre 2022 e 2025, segundo a Diamante, 3,69 milhões de toneladas de cinzas foram reaproveitadas, principalmente na fabricação de cimento. A destinação evita o descarte e reduz a necessidade de outras matérias-primas na indústria cimenteira.



A companhia estima que esse aproveitamento tenha evitado a emissão de aproximadamente 1,6 milhão de toneladas de dióxido de carbono no período. O cálculo utiliza fatores fornecidos pela Votorantim e não possui verificação independente. A Diamante informa que está adquirindo fatores de emissão para desenvolver estimativas próprias.



O passo seguinte é agregar valor ao material.



Uma parceria entre Diamante e SATC pesquisa a fabricação de zeólitas sintéticas. Esses minerais podem ser empregados na captura de carbono e como dosadores de fertilizantes no solo.



Zancan estima que as zeólitas possam alcançar escala industrial em aproximadamente quatro anos. Também estão em estudo fertilizantes produzidos a partir dos gases da combustão e a extração de terras raras das cinzas.



“O foco é gerar uma nova indústria do carvão. A consequência pode ser preservar empregos existentes, criar atividades a partir de novos produtos e ampliar a matriz econômica”, avalia.



Ainda não há estimativa de quantas empresas ou vagas essas tecnologias poderão gerar. A passagem do laboratório para a indústria dependerá de viabilidade técnica, financiamento, licenciamento e mercado.



Essa é a distância que separa uma pesquisa promissora de uma nova cadeia produtiva.



O que pode produzir energia depois de 2040



Enquanto novos usos do carvão são pesquisados, a Diamante avalia alternativas para manter a geração de energia na área do Complexo depois de 2040.



Três caminhos estão em análise: uma nova usina a carvão com captura de carbono, geração a gás natural e pequenos reatores nucleares. Nenhum representa, até agora, uma decisão definitiva de investimento.



A companhia participa ainda, com a Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, e outras instituições brasileiras, do desenvolvimento de um microrreator nuclear de 5 megawatts.



A proposta é criar uma unidade compacta e transportável, capaz de fornecer energia contínua a comunidades isoladas e instalações fora do Sistema Interligado Nacional.



O projeto ainda deverá percorrer etapas técnicas, regulatórias e industriais antes de uma eventual aplicação comercial. A iniciativa demonstra, porém, que o futuro do Complexo poderá exigir competências muito diferentes das que sustentaram seus primeiros 60 anos.



Planejamento público ainda está no papel



A transformação industrial avança enquanto Santa Catarina prepara a política pública que deverá orientar a transição.



O Governo do Estado contratou a Fundação Getulio Vargas por R$ 3,5 milhões para elaborar o Plano Estadual de Transição Energética Justa.



A segunda etapa foi concluída em julho de 2026, com a definição da metodologia. A terceira, prevista para terminar em outubro, deverá estabelecer programas de qualificação, alternativas de diversificação econômica, metas, investimentos e fontes de financiamento.



Até agora, não foram implementados programas estaduais específicos de qualificação, requalificação ou recolocação profissional vinculados ao plano. Também não é possível atribuir à política a atração de empresas ou a criação de empregos.



A justificativa apresentada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde e pela FGV é evitar ações isoladas antes da conclusão do diagnóstico e da definição das prioridades.



A Federação Interestadual dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Carvão, a FITIEC-PR/SC/RS, cobra maior participação dos profissionais nas decisões.



O presidente da entidade, Genoir José dos Santos, afirma que os trabalhadores ainda não conhecem um cronograma claro de proteção do emprego e da renda. A Federação defende qualificação antecipada, garantia de direitos e participação permanente dos sindicatos.



Governo e FGV informam que trabalhadores e entidades representativas correspondem a aproximadamente 35% das pessoas entrevistadas no projeto. A Secretaria cita reuniões e workshops, mas reconhece que essas atividades não substituem os mecanismos formais de participação social necessários durante a implementação.



A divergência não está apenas em saber se os trabalhadores foram ouvidos, mas no poder que terão para influenciar as decisões.



A contagem regressiva já começou



A garantia da geração até 2040 afastou o risco imediato de encerramento das atividades. Também ofereceu à região aquilo que poucas transições industriais possuem: tempo para planejar.



Mas o prazo não começará quando a última tonelada de carvão chegar à usina. Ele já está em curso.



Para Alciones, que pretende construir uma carreira longa no setor de energia, a mudança precisa combinar tecnologia e oportunidade.



“Espero que as transformações sejam acompanhadas de investimentos em qualificação e de novas oportunidades para os trabalhadores”, afirma.



Rui deixou o Complexo com a aposentadoria assegurada, mas preocupado com quem permaneceu.



“Eu sabia que sairia em uma condição de vida boa, mas as pessoas que estavam no meu entorno viveriam aquela indefinição. Como eu iria olhar para elas e dizer: ‘Agora estou muito bem e vocês que lutem?’ Aquilo me angustiava muito”.



Entre o último turno de Rui e os primeiros meses de Alciones na operação, a cadeia do carvão tem 14 anos para converter pesquisa em indústria, capacitação em emprego e infraestrutura em novas oportunidades.



Em 2040, o resultado não será medido apenas pela fonte usada para produzir energia. Estará também nas cinzas que viraram matéria-prima, nos trilhos que encontraram outras cargas, nas tecnologias que deixaram os laboratórios e nas pessoas que conseguiram atravessar a transformação sem ficar para trás.


Fonte: Redação
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