Entre conquistas esportivas, obras incorporadas à cidade e estruturas subutilizadas, o legado dos Jogos ainda provoca questionamentos uma década depois
Dez anos se passaram desde a noite em que o Maracanã recebeu atletas de diferentes partes do mundo e colocou o Brasil no centro das atenções. A cerimônia de abertura da Rio 2016 apresentou ao planeta um país diverso, criativo e capaz de organizar um dos maiores eventos esportivos existentes.
A história começou em 2009, quando o Rio de Janeiro superou Chicago, Tóquio e Madri na escolha da sede. Pela primeira vez, os Jogos Olímpicos seriam realizados na América do Sul. Mais do que receber competições, a candidatura prometia transformar a cidade, melhorar o transporte público, revitalizar áreas urbanas e deixar instalações para o desenvolvimento do esporte.
O cenário encontrado em 2016, no entanto, era diferente daquele vivido no momento da escolha. O país enfrentava dificuldades econômicas e institucionais, enquanto dúvidas sobre segurança, obras, poluição e organização apareciam com frequência na imprensa internacional. Ainda assim, quando as competições começaram, parte da desconfiança deu lugar ao envolvimento do público.
Milhões de ingressos foram vendidos e modalidades que raramente recebem espaço no Brasil passaram a ocupar as transmissões, as redes sociais e as conversas cotidianas. Durante pouco mais de duas semanas, o público acompanhou esportes como canoagem, esgrima, badminton, ginástica, boxe, levantamento de peso e tiro com arco.
O Brasil também viveu momentos históricos. Foram 19 medalhas, sendo sete de ouro, o melhor resultado do país até aquele momento. Rafaela Silva venceu no judô, Thiago Braz surpreendeu no salto com vara, Robson Conceição conquistou o primeiro ouro brasileiro no boxe, Isaquias Queiroz subiu três vezes ao pódio e o futebol masculino finalmente alcançou o título olímpico.
As edições seguintes mostraram que o esporte brasileiro conseguiu manter resultados importantes. Foram 21 medalhas em Tóquio e 20 em Paris. Entretanto, uma boa participação olímpica não significa necessariamente que todas as modalidades tenham recebido estrutura permanente.
Esse talvez seja um dos principais contrastes deixados pela Rio 2016. Nos anos olímpicos, atletas de esportes menos populares tornam-se conhecidos, emocionam o país e ganham espaço na imprensa. Depois da cerimônia de encerramento, muitos voltam a competir quase sem visibilidade, patrocínio ou acompanhamento do público.
Cria-se um ciclo difícil de romper. Algumas modalidades recebem pouca cobertura porque não possuem grande audiência, mas também encontram dificuldades para formar público porque raramente aparecem. A Olimpíada mostrou que existe interesse quando esses esportes recebem espaço e boas histórias. O desafio é manter essa atenção durante os quatro anos do ciclo.
Fora das competições, parte do legado permanece na infraestrutura. A preparação acelerou a construção da Linha 4 do metrô, dos corredores de BRT e do VLT. A região portuária também passou por uma transformação, com a retirada da Perimetral, a criação do Boulevard Olímpico e a instalação de novos espaços culturais e turísticos.
São obras que continuam fazendo parte da cidade, embora seus benefícios não tenham alcançado todas as regiões e grupos sociais da mesma forma. A experiência mostrou que construir uma nova estrutura é apenas uma etapa. Para que o investimento permaneça útil, é necessário manter os serviços, integrar os diferentes sistemas e adaptá-los às necessidades da população.
As instalações esportivas também apresentam realidades distintas. A Arena Carioca 3 foi transformada em escola pública de período integral. A antiga Arena do Futuro foi desmontada e reaproveitada na construção de unidades educacionais. O Parque Aquático Maria Lenk continua sendo utilizado no treinamento de atletas, assim como estruturas de canoagem e BMX.
Esses exemplos mostram que uma arena não precisa continuar recebendo grandes eventos para cumprir uma função importante. Quando o espaço se transforma em escola, centro de treinamento ou equipamento público, o legado deixa de ser uma promessa e passa a fazer parte do cotidiano.
Em outros locais, porém, houve períodos de fechamento, pouca utilização e dificuldades de manutenção. Instalações construídas para modalidades específicas nem sempre encontraram uma programação regular ou um modelo capaz de garantir seu funcionamento depois dos Jogos.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados deixados por uma Olimpíada. O planejamento não pode terminar na cerimônia de abertura. Antes de construir, é necessário definir como o espaço será utilizado, quem será responsável por sua administração e de onde virão os recursos para mantê-lo durante as décadas seguintes.
Na área ambiental, a despoluição da Baía de Guanabara esteve entre as principais promessas da preparação. A meta não foi alcançada no prazo olímpico. Houve avanços posteriores em determinados pontos, mas problemas relacionados ao despejo de esgoto e à poluição continuam presentes em parte da região.
Também existiram impactos sociais causados pelas transformações urbanas. Comunidades próximas às áreas das obras tiveram suas rotinas modificadas, e o caso da Vila Autódromo tornou-se o exemplo mais conhecido. Independentemente da avaliação sobre os projetos, essas consequências precisam fazer parte de qualquer balanço sobre o evento.
Dez anos depois, a Rio 2016 continua apresentando imagens opostas. Há crianças estudando dentro de uma antiga arena e estruturas que ainda procuram uma utilização constante. Há linhas de transporte incorporadas ao cotidiano e sistemas que continuam necessitando de ajustes. Há centros de treinamento em funcionamento e esportes que voltam ao esquecimento depois de cada Olimpíada.
Por isso, talvez seja difícil definir os Jogos do Rio apenas como sucesso ou fracasso. Houve organização, resultados esportivos, investimentos, transformação urbana e projeção internacional. Também existiram metas atrasadas, equipamentos subutilizados e oportunidades que não produziram todos os resultados esperados.
O Brasil mostrou que era capaz de realizar uma Olimpíada. O desafio que permaneceu foi transformar os dezessete dias de competição em benefícios que continuassem presentes durante muitos anos.
A chama olímpica se apagou no Maracanã em 2016. Uma década depois, a pergunta continua: o legado de uma Olimpíada deve ser medido pelo tamanho da festa ou pelo que permanece na vida da cidade quando o mundo deixa de olhar para ela?

Esporte
Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.