Tudo começou com uma rolada distraída no Instagram. Apareceu um post do The Economist, manchete vermelha, letra clássica, aquele ar de jornal que não precisa gritar para ser lido, perguntando, sem rodeios: quem deveria vencer a Copa do Mundo?
Não "quem vai vencer". Isso é prognóstico, é trabalho pra casa de apostas e pra modelo estatístico. A pergunta do Economist era outra, mais incômoda: quem merece. E quanto mais eu pensava nisso, mais percebia que essa Copa de 2026, a primeira com 48 seleções, disputada simultaneamente em três países, está cheia de material pra responder essa pergunta de um jeito que vai muito além de quem joga bola bonita.
Os que nunca tinham chegado lá
Tem uma diferença grande entre merecer vencer e merecer estar lá. E nesse segundo critério, a edição de 2026 é generosa: quatro seleções debutaram no torneio, Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão. Cabo Verde, arquipélago de pouco mais de 500 mil habitantes, é a terceira menor nação a se classificar para uma Copa na história. Curaçao bateu esse recorde: com 156 mil habitantes, é hoje a menor seleção a chegar a um Mundial. O Uzbequistão carrega a curiosidade de ser um dos dois únicos países do planeta duplamente sem litoral: você precisa atravessar dois países pra chegar ao mar.
E não ficou só na simbologia. Cabo Verde empatou em 0 a 0 com a favorita Espanha, com o goleiro Vozinha, de 40 anos, fazendo sete defesas para sustentar o resultado. A Escócia venceu pela primeira vez em quase trinta anos. A Austrália surpreendeu a Turquia. Se a pergunta é "quem deveria vencer", talvez a resposta mais honesta, nesse estágio, seja: quem está fazendo a competição valer a pena de assistir.
O outro lado da globalização do futebol
Só que tem um contraponto desconfortável. A Copa dos Estados Unidos, México e Canadá também expôs, com uma clareza quase didática, que nem todo mundo chega ao torneio em condições iguais, e isso não tem nada a ver com técnica.
O Irã, em guerra declarada com os Estados Unidos, teve sua delegação proibida de se hospedar no Arizona e precisou mudar de base para Tijuana, no México. Um atacante iraquiano foi retido por horas na imigração de Chicago, com o celular revistado, dias antes da estreia da sua seleção. O fotógrafo da mesma delegação ficou mais de dez horas detido e nem chegou a entrar no país. Um árbitro somali foi impedido de desembarcar em Miami e voltou para Mogadíscio, onde, ironicamente, foi recebido como herói por ter "vivido o sonho" de quase apitar uma Copa. A seleção uruguaia, por motivos puramente logísticos, quase perdeu o avião que a levaria ao primeiro jogo.
Nenhuma dessas histórias aparece na tabela de classificação. Mas todas elas dizem alguma coisa sobre o que significa "merecer" disputar essa Copa, e sobre como a geopolítica entra em campo antes mesmo da bola rolar.
As rachaduras dentro do próprio jogo
E tem ainda as polêmicas que nascem dentro das quatro linhas e do próprio regulamento. A FIFA instituiu pausas obrigatórias de hidratação que, segundo a imprensa especializada, funcionam também como intervalo publicitário: cada uma pode gerar entre 7 e 9 milhões de dólares em propaganda, o que não passou batido pelos técnicos, que reclamam da quebra de ritmo. Os ingressos bateram recorde de preço, com valores de 60 dólares na fase de grupos a mais de 7 mil na final. O jogo de abertura entre México e África do Sul teve três expulsões, o maior número desde 2006. O pênalti de Harry Kane contra a Croácia precisou ser cobrado duas vezes depois de revisão de VAR. E um árbitro assistente de vídeo australiano foi acusado de fazer, em rede nacional, um gesto associado a grupos de extrema-direita; a FIFA investigou e não encontrou irregularidade, mas o episódio ficou.
Há também um caso mais espinhoso: o meio-campista ganês Thomas Partey, que responde a sete acusações de estupro no Reino Unido, teve o visto recusado pelo governo canadense e ficou de fora da estreia da sua seleção em Toronto. O técnico de Gana defendeu sua convocação citando presunção de inocência; o caso expõe o limite incômodo entre celebridade esportiva e processo penal em andamento.
Voltando à pergunta do Economist
Então, quem deveria vencer essa Copa? Se a resposta depender só de talento, a lista de favoritos não muda muito: Espanha, França e Argentina continuam por cima. Mas se a pergunta for sobre o que a Copa deveria representar, um mundo que, por um mês, esquece fronteiras e celebra o que tem de melhor, a resposta fica mais difícil. Porque essa mesma Copa que celebra Cabo Verde e Curaçao é a que prendeu um fotógrafo iraquiano na imigração e mandou um árbitro somali de volta pra casa.
Mas talvez a resposta mais honesta não esteja em nenhuma dessas seleções.
Pense no que está acontecendo agora em Cabo Verde. Num arquipélago no meio do Atlântico, com menos gente do que muitos bairros de São Paulo, pessoas estão acordando cedo, pintando o rosto, assistindo ao time delas segurar a Espanha num 0 a 0. Em Curaçao, a menor nação da história a disputar uma Copa, deve ter gente que nunca imaginou ver isso em vida. No Uzbequistão, um país que a maioria das pessoas não saberia apontar no mapa, existe hoje uma geração que vai contar para os filhos que esteve lá.
Nenhum dado captura isso. Nenhuma tabela de apostas precifica o que significa para um país pequeno, periférico e sem tradição no futebol mundial acordar um dia e descobrir que é parte da festa. Que existe. Que chegou.
Então talvez a pergunta do Economist tenha uma resposta mais simples do que parece. Quem deveria vencer essa Copa? Quem já ganhou só de estar aqui. O troféu, no final, é só metal. O resto é o que fica.
E por hoje é isso. A Copa segue, e a gente também.

Esporte
Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.