Sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Buscar
Fechar [x]
Vinícios Redivo
27/08/2026 13h23

Entre metas e bem-estar, a corrida conquista gerações

Das ruas às academias, esporte reúne saúde, convivência, superação e objetivos pessoais para pessoas de diferentes idades

 

 

Há quem corra para completar os primeiros cinco quilômetros. Outros buscam reduzir o próprio tempo, cuidar da saúde, aliviar a mente ou encontrar amigos. Existem ainda aqueles que não têm interesse em medalhas: calçam os tênis porque descobriram na corrida um momento de liberdade. Por trás de cada pessoa que passa pelas avenidas, praças e parques, pode existir uma motivação diferente.

 

 

Minha percepção é de que a corrida oferece algo cada vez mais raro: liberdade individual sem necessariamente provocar isolamento. Cada corredor escolhe o próprio ritmo, a distância e a meta, mas pode fazer isso acompanhado por uma comunidade. Talvez essa capacidade de acolher objetivos tão diferentes explique por que o esporte conquistou várias gerações.

 

 

A segunda edição da pesquisa “Por Dentro do Corre”, encomendada pela Olympikus e conduzida pela Box1824, consultoria estratégica especializada em comportamento e tendências, estimou que o Brasil chegou a aproximadamente 15 milhões de corredores. Na primeira edição, a estimativa era de cerca de 13 milhões. O novo levantamento ouviu 1.179 praticantes de todas as regiões do país em novembro de 2025.

 

 

A participação feminina alcançou 50% da amostra, enquanto a presença de jovens entre 18 e 24 anos passou de 12% para 20%. A idade média dos participantes caiu de 37 para 34 anos. Saúde física, bem-estar mental e condicionamento aparecem entre as principais motivações. Como se trata de uma pesquisa de mercado, os números não equivalem a um censo oficial, mas ajudam a dimensionar uma transformação já percebida nas ruas e nas provas.

 

 

Na região, o interesse também se transforma em eventos e calendários mais movimentados. Sediada em Tubarão, a On Sports é especializada na organização de eventos esportivos e corporativos e atua em provas de corrida com serviços de inscrição, produção de kits, cronometragem e estrutura. Sua presença mostra que o crescimento da modalidade não está restrito às capitais: também movimenta profissionais, organizadores e comunidades locais.

 

 

 

Uma resposta para o nosso tempo

 

 

 

 

O crescimento da corrida não parece acontecer por acaso. Vivemos cercados por telas, cobranças e resultados que demoram a aparecer. Na corrida, a evolução é concreta: completar uma volta sem parar, aumentar a distância, reduzir o tempo ou terminar uma prova antes considerada impossível.

 

 

Esse progresso mensurável atrai especialmente os mais jovens. Aplicativos e relógios registram ritmo, distância e recordes pessoais, transformando cada treino em uma conquista compartilhável. Mas a tecnologia não explica sozinha o vínculo com o esporte. O relógio mostra o tempo, mas não mede a sensação de superação.

 

 

Para muitos jovens, grupos e assessorias também se tornaram espaços de convivência. Vínculos passam a ser formados durante os quilômetros percorridos em conjunto, e a corrida deixa de representar apenas desempenho para funcionar como ponto de encontro.

 

 

Uma revisão de 56 estudos, envolvendo mais de 37 mil participantes encontrou resultados positivos frequentes relacionados ao humor e ao bem-estar entre praticantes de corrida recreativa. O trabalho também identificou que a confiança na própria capacidade, o apoio social e a percepção de controle estão entre os fatores associados à continuidade no esporte.

 

 

Outro estudo, publicado em 2026 e realizado com 404 participantes de eventos, encontrou associação entre o tempo dedicado à corrida e maior satisfação com a vida. Emoções positivas, relacionamentos e sensação de realização ajudaram a explicar essa ligação. A participação em clubes de corrida também apareceu relacionada ao fortalecimento das conexões sociais.

 

 

Essas pesquisas não permitem afirmar que a corrida resolverá, sozinha, problemas emocionais. O esporte também não substitui acompanhamento profissional quando necessário. O que os estudos indicam é que movimentar o corpo, estabelecer objetivos e conviver com outras pessoas pode colaborar com o bem-estar.

 

 

O que os mais jovens e os mais velhos procuram

 

 

 

 

Jovens e pessoas mais velhas nem sempre calçam os tênis pelas mesmas razões. Um estudo com 1.537 corredores identificou maior motivação dos mais jovens por metas pessoais, reconhecimento e competição. Entre os participantes mais velhos, saúde e autoestima ganharam importância.

 

 

Para um jovem, a corrida pode representar desafio, pertencimento e construção de identidade. Para uma pessoa mais velha, pode significar autonomia, continuidade e a confirmação de que envelhecer não precisa ser sinônimo de imobilidade.

 

 

Os dados brasileiros mostram claramente o crescimento dos jovens, mas não permitem afirmar que os idosos estejam liderando a expansão no país. O que se observa é uma presença mais visível de pessoas mais velhas em provas e grupos, além de uma mudança cultural na forma de encarar o envelhecimento.

 

 

Uma revisão científica que analisou 3.001 pessoas, com média de 59 anos não encontrou maior progressão de osteoartrite entre corredores com mais de 50 anos quando comparados a não corredores. O resultado não significa que correr proteja os joelhos em todas as circunstâncias, nem que lesões sejam impossíveis. Ele apenas enfraquece a ideia generalizada de que a corrida recreativa necessariamente acelera o desgaste das articulações.

 

 

A prática precisa respeitar as condições e a capacidade de cada indivíduo. Para pessoas sedentárias, com dores, doenças ou fatores de risco, uma avaliação profissional oferece mais segurança para o início das atividades.

 

 

O significado de vitória também muda entre as gerações. Para um jovem, vencer pode ser alcançar um recorde. Para uma pessoa mais velha, pode ser conservar a independência ou recuperar a confiança no próprio corpo. Não existe uma conquista maior ou menor. Existem desafios diferentes.

 

 

 

Benefícios percebidos desde os primeiros treinos

 

 

 

 

Alguns efeitos podem ser percebidos em curto prazo. Após um treino adequado, muitas pessoas relatam melhora do humor, redução da tensão e sensação de dever cumprido. A atividade também pode interromper a rotina mental e voltar a atenção para a respiração, os movimentos e o caminho.

 

 

Existe até uma expressão conhecida entre os praticantes: o “barato do corredor”, tradução aproximada de runner’s high. Ela descreve uma sensação passageira de bem-estar, tranquilidade e menor percepção de dor ou esforço após uma corrida prolongada. Durante muito tempo, o efeito foi atribuído principalmente às endorfinas. Entretanto, um estudo controlado com 63 participantes apontou também a participação dos endocanabinoides, substâncias produzidas pelo organismo que podem colaborar para o relaxamento e a redução da ansiedade. Nem todos experimentam essa sensação, mas ainda podem obter outros benefícios.

 

 

Nas primeiras semanas, perceber a evolução pode fortalecer a confiança. A pessoa que não conseguia correr por dois minutos passa a completar cinco e, depois, dez. A distância que parecia longa começa a parecer possível, modificando também a percepção sobre a própria capacidade.

 

 

No longo prazo, a prática regular está associada à melhora do condicionamento cardiorrespiratório, da resistência física e de diferentes indicadores de saúde. Um estudo observacional que acompanhou mais de 55 mil adultos encontrou, entre os corredores, riscos 30% menores de mortalidade por todas as causas e 45% menores de morte cardiovascular. Os pesquisadores estimaram ainda uma diferença de aproximadamente três anos na expectativa de vida.

 

 

Como a pesquisa é observacional, não se pode atribuir todos os resultados exclusivamente à corrida. Os praticantes podem ter outros hábitos favoráveis à saúde. Ainda assim, o estudo se soma às evidências sobre os benefícios da atividade física regular.

 

 

A corrida, no entanto, não deve ser romantizada como solução milagrosa. Mais quilômetros nem sempre significam mais saúde. Descanso, alimentação, progressão dos treinos e sono fazem parte do processo.

 

 

Um estudo publicado em 2026 acompanhou 224 corredores recreativos chineses durante um ano por meio de registros de dispositivos Garmin. A base reuniu 38.657 dias de treino e 60.465 noites de sono. Os pesquisadores encontraram associação entre cargas elevadas e redução do sono profundo e da fase REM, além de mais tempo em sono leve ou acordado. No sentido contrário, noites insuficientes foram acompanhadas por ritmo mais lento e menor eficiência nos treinos.

 

 

A maioria dos participantes era formada por homens, e os dados vieram de dispositivos vestíveis, limitações que impedem generalizar os resultados. Ainda assim, o estudo reforça uma lembrança: evolução também depende da recuperação. Treinar por culpa ou perseguir o desempenho dos outros pode transformar uma atividade saudável em nova fonte de cobrança. O relógio deve auxiliar o corredor, não controlá-lo.

 

 

 

Esteira ou rua?

 

 

 

 

Embora a expressão “corrida de rua” remeta ao ambiente externo, muitas pessoas começam ou mantêm os treinos em esteiras. As duas formas são válidas e podem se complementar.

 

 

A esteira oferece controle de velocidade, inclinação e duração sem chuva, trânsito, buracos ou falta de iluminação. Também permite sessões previsíveis, algo útil para quem possui horários limitados ou se sente inseguro nas ruas.

 

 

Ao ar livre, existem vento, curvas, subidas, descidas e variações de terreno e temperatura. O corpo reage ao ambiente, enquanto o corredor aprende a controlar o ritmo sem depender do painel de uma máquina.

 

 

Uma revisão sistemática sobre a biomecânica da corrida na esteira e no solo indicou que as duas formas são amplamente comparáveis, embora existam diferenças em alguns movimentos e características das passadas. Outra revisão, dedicada às respostas fisiológicas, à percepção do esforço e ao desempenho, mostrou que os resultados podem variar conforme a velocidade e as condições do exercício. Não se trata, portanto, de dizer que uma forma é verdadeira e a outra é uma imitação. São experiências parecidas, mas não idênticas.

 

 

No aspecto emocional, uma revisão que comparou exercícios em ambientes internos e externos encontrou indícios de maior prazer nos espaços abertos, embora as vantagens fisiológicas não tenham sido conclusivas. Próxima à natureza, a atividade também pode proporcionar uma experiência mais agradável.

 

 

A rua oferece variedade; a esteira, previsibilidade e segurança. A melhor escolha é aquela que favorece a constância. Para muitas pessoas, será a combinação das duas.

 

 

 

Sozinho, em dupla ou em grupo?

 

 

 

 

A companhia modifica a experiência. Correr sozinho proporciona autonomia sobre horário, percurso, velocidade e momento de parar. Esse período pode ajudar a organizar a mente: alguns aproveitam para pensar ou ouvir conteúdos; outros prestam atenção nos sons, na respiração e nos passos.

 

 

Sem a influência do ritmo coletivo, também pode ser mais fácil reconhecer os sinais do corpo e perceber se há cansaço acumulado ou necessidade de reduzir o treino.

 

 

Já a corrida em dupla ou em grupo oferece compromisso: quando alguém está esperando, fica mais difícil adiar o treino. A companhia acrescenta conversa, segurança e pertencimento, enquanto as conquistas se transformam em celebrações coletivas.

 

 

O grupo mostra ao iniciante que ele não precisa estar pronto para participar. Porém, a corrida coletiva exige maturidade: nem sempre o ritmo dos outros é adequado. Tentar acompanhar pessoas mais experientes pode elevar o esforço e fazer conquistas pessoais parecerem insuficientes.

 

 

A melhor companhia incentiva sem constranger e respeita quem precisa reduzir o ritmo ou caminhar. Não é necessário escolher definitivamente: há dias em que a pessoa procura silêncio; em outros, precisa de conversa. A corrida comporta as duas necessidades.

 

 

 

Um esporte capaz de criar provas improváveis

 

 

 

 

A popularidade incentivou o surgimento de competições que vão muito além das tradicionais provas de cinco ou dez quilômetros. No País de Gales, a “Race the Train” desafia os participantes a percorrer cerca de 23 quilômetros antes que um trem a vapor complete seu trajeto. O adversário não está usando tênis: segue sobre trilhos.

 

 

Em Nova York, uma prova de apenas 100 metros foi anunciada com uma premiação incomum: ajuda de até US$ 4 mil para o aluguel. Em uma cidade conhecida pelo elevado custo de moradia, correr por alguns segundos pode representar um alívio importante no orçamento.

 

 

Ao mesmo tempo, o alto rendimento continua produzindo marcas impressionantes. Na Meia Maratona de Buenos Aires, disputada em agosto, o etíope Yomif Kejelcha completou os 21,097 quilômetros em 56 minutos e 51 segundos, estabelecendo um recorde mundial.

 

 

Na mesma competição, a brasileira Nubia de Oliveira terminou em 1 hora, 11 minutos e 13 segundos e superou um recorde nacional que permanecia havia 35 anos. A marca anterior pertencia a Márcia Narloch e havia sido registrada em Florianópolis.

 

 

Esses exemplos mostram a amplitude do esporte. Enquanto atletas de elite perseguem marcas mundiais, milhares de pessoas comemoram o primeiro quilômetro sem caminhar. A modalidade é a mesma; os desafios, completamente diferentes.

 

 

 

A corrida também expõe desigualdades

 

 

 

 

Apesar de acessível em sua forma básica, a corrida não está livre de barreiras. Tênis, inscrições, deslocamentos, relógios e assessorias podem representar gastos elevados. Também não basta dizer que as ruas pertencem a todos quando faltam calçadas, iluminação, parques e segurança.

 

 

Na pesquisa sobre os corredores brasileiros, a insegurança foi apontada por 32% das mulheres e 25% dos homens. Incentivar a corrida exige cidades preparadas para quem se movimenta. Ruas seguras beneficiam corredores, caminhantes, ciclistas, crianças, idosos e pessoas com deficiência.

 

 

A democratização do esporte não depende apenas do número de inscritos em grandes provas. Ela acontece também quando alguém encontra perto de casa um local iluminado e bem cuidado para praticar atividade física sem medo.

 

 

 

Cada pessoa possui uma linha de chegada

 

 

 

 

Para quem pretende começar, o principal conselho é abandonar a ideia de correr muito desde o primeiro dia. Caminhar também faz parte. Alternar trote e caminhada não diminui a conquista e pode ajudar a construir constância.

 

 

O iniciante não precisa perseguir imediatamente cinco quilômetros, comprar todos os equipamentos ou se inscrever em uma prova. A primeira meta pode ser reservar alguns minutos da semana para se movimentar. Também não deve comparar os primeiros treinos com os anos de preparação de outra pessoa. Nas redes sociais, vemos o resultado, mas não todo o caminho.

 

 

Para quem já corre, permanecer não significa quebrar recordes em todos os treinos. Existem dias rápidos, lentos, pausas e retornos. Em algumas fases, manter o hábito já representa uma vitória.

 

 

A corrida ensina que nem toda evolução aparece no cronômetro. Às vezes, ela surge na disposição cotidiana, na qualidade do descanso, na confiança ou nas amizades construídas no percurso.

 

 

Não é necessário tornar-se profissional para merecer o título de corredor. Não é obrigatório subir ao pódio, completar uma maratona ou publicar cada treino. Quem volta para casa sentindo que avançou já encontrou uma razão legítima para continuar.

 

 

Talvez essa seja a maior força da modalidade: a linha de chegada muda conforme a história de cada pessoa. Pode estar no pódio, no reencontro com a saúde, na possibilidade de envelhecer com autonomia, na conversa com um amigo ou no silêncio de uma corrida solitária.

 

 

Em uma sociedade acostumada à pressa, correr parece contraditório: movimentamos o corpo justamente para desacelerar a mente. Buscamos chegar mais rápido, mas muitas vezes encontramos no caminho aquilo de que realmente precisávamos.

 

 

A corrida de rua conquista gerações porque não exige uma única justificativa. Cada pessoa pode começar por um motivo e continuar por outro.

 

 

O primeiro passo não precisa ser rápido. Precisa apenas apontar para a direção certa.

 

Crédito das imagens: Magnific/Running Calendar UK

Vinícios Redivo

Esporte

Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.

Hora Hiper

Tubarão / SC
Avenida Marcolino Martins Cabral, 1788, Edifício Minas Center, Sala 507, 88705-000, Vila Moema
(48) 3626-8001 (48) 98818-2057
Braço do Norte / SC
Rua Raulino Horn, 305, 88750-000, Centro
(48) 3626-8000 (48) 98818-1037
Hora Hiper © 2020. Todos os direitos reservados.
Política de Privacidade

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.