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GERAL
20/07/2021 10h02

Engenho de farinha de Capivari de Baixo pode se tornar ponto cultural de visitação pública

Local existe há pelo menos 70 anos

Seu Manoel Francisco já bateu à casa dos 70 anos de idade, mas não é pelo tempo de vida que ele aparece de barba e cabelos brancos à porta do seu estabelecimento, para receber o grupo de visitantes da prefeitura. O brancor de seus pelos e cabelos, ressaltado pela cor negra da sua pele se dá porque este é um dia de “farinhada”. É assim que o pessoal que trabalha na produção artesanal de farinha de mandioca chama este dia de lida, incansável, que tem hora para iniciar, mas não para terminar.



A vice-prefeita Márcia Roberg Cargnin, com a intimidade de quem já trabalhou com Manoel na mesma unidade escolar, brinca com o amigo, pela aparência esbranquiçada. “Depois de 12h de farinhada, não tem como estar diferente”, justifica ele, às 10h30 daquele dia, exausto da jornada que iniciara às 22h do dia anterior.





Márcia e Manoel




Mas seu Manoel não estava sozinho. Três metros daí, um grupo de sete ou oito mulheres raspava mais um lote de mandioca, que mais tarde viraria farinha e beiju, como o que aconteceu com o lote de seu Manoel, só que este já era de outro núcleo familiar.



Além da família de seu Manoel, que tem a mulher, Maria do Carmo, e dois filhos e netos, cerca de outros 20 núcleos utilizam o engenho dele para produzir a sua farinha e derivados. “Por baixo, atinge de 50 a 60 pessoas, entre tios, primos, irmãos, sobrinhos, netos. Todas têm alguma ligação de parentesco”, diz io trabalhador.



O engenho foi originalmente de seu bisavô, Francisco Bernardo, e ficava em outro local, próximo. Francisco teve um só filho, Manoel Francisco Bernardo, que mudou o engenho para onde se encontra hoje, na Vila Flor. Já o avô do nosso personagem central não foi econômico na produção de filhos: teve sete no primeiro casamento, e outros sete no segundo matrimônio. Um dos filhos do primeiro casamento era Silvério Manoel Francisco, que vem a ser o pai de seu Manoel Francisco. Manoel, filho mais velho do seu Silvério, é o timoneiro da família na condução do engenho e na convivência colaborativa e harmoniosa entre os diversos núcleos familiares.



“A coisa aqui começa com a arrancada da mandioca, depois ela é lavada e trazida para o engenho. Então tem a casca raspada à mão, é moída, e a massa é cevada. Depois, a massa é secada no tipiti (balaios de bambu próprios para isso). É peneirada, vai ao forno, que é uma espécie de tacho gigante, à lenha. Com a farinha ou beiju ao ponto, o material é retirado manualmente do forno e recomeça tudo de novo, até terminar o lote”, explica seu Manoel.




Dia da 'farinhada"



A farinha produzida no engenho não é para a venda, exceto quando algum amigo ou conhecido insiste demais em obter uma pequena quantia. “Tudo é para o consumo próprio. Todas as famílias têm a sua pequena plantação de mandioca para esta finalidade. E até quem não tem, às vezes compra de outros para vir aqui fazer a farinha”, conta seu Manoel.



E assim, o engenho dos Francisco sobrevive há pelo menos 70 anos, embora o tempo exato nem mesmo seu Manoel consegue dizer. “Não consigo garantir com certeza, mas pelos nossos cálculos, pela conversa com pessoas mais velhas da comunidade e por familiares que já se foram, o engenho é da década de 1940 ou 1950”, calcula.



 


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Ponto de visitação



A vice-prefeita esteve acompanhada do diretor de Cultura, Álvaro Dalmagro, recém-empossado no cargo, que não tem dúvida do potencial do local. “Fiquei impressionado com este universo da produção de farinha artesanal e com a importância que isso tem para estas famílias do ponto de vista do cooperativismo, da manutenção dos laços culturais, das raízes de sua origem, do aspecto gastronômico e econômico. O engenho é histórico, e tanto o prédio físico quanto todo este jeito de fazer farinha e de conviver entre as pessoas podem virar um ponto cultural de visitação, além de poder ser explorado também pela rede municipal de ensino”, considera Álvaro.



E é esta a intenção de Manoel: tornar o velho engenho um novo ponto de turismo e de cultura. “Para isso, teríamos que fazer uma reforma geral, porque do jeito que está não tem como. A gente até andou trocando alguns barrotes do telhado por que estavam podres e a gente corria risco. Mas é preciso mais. Uma reforma geral”, argumenta.



O prefeito Dr. Vicente Costa, que dias depois também visitou o engenho acompanhado do chefe de Gabinete, Herivelton de Souza, o China, da mesma forma ficou impressionado com o que viu e acenou para a possibilidade de o município fazer um projeto de recuperação, e o valor do orçamento da obra ser incluído na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2022.



A secretária de Educação, Cultura, Esporte e Turismo, Lenir Willemann, já sonha alto com as possibilidades. “Quem sabe um dia a gente não consegue incluir nosso engenho na Rede Catarinense de Engenhos de Farinha?”, desafia. A rede a que se refere iniciou em 2010, por meio das atividades do Ponto de Cultura Engenhos de Farinha, um programa do antigo Ministério da Cultura. A ONG Cepagro iniciou a articulação das famílias dos engenhos que resistiam e mantinham-se ativas após tantas décadas, incentivando-as a continuarem rodando. Ao longo dos anos, esse coletivo foi ganhando corpo e, além das famílias, a Rede foi envolvendo outros representantes da sociedade civil e do poder público.



No momento, faz uma campanha de arrecadação de recursos coletiva pela Internet (https://benfeitoria.com/rodandoengenhos), que permita fazer diagnósticos participativos que buscam identificar particularidades, necessidades, fragilidades e potencialidades, oferecer oficinas para qualificar os engenhos no atendimento a turistas e grupos pedagógicos, equipar e instrumentalizar os engenhos, além de buscar parcerias, os engenhos de farinha possam fazer parte de rotas turísticas e como espaço de aprendizagem para as escolas.



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Fonte: Redação
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