Produzido em águas salobras e capturado com técnicas artesanais, o crustáceo movimenta a economia e preserva tradições centenárias no Sul catarinense
Foto: Divulgação PML
O complexo lagunar formado pelas lagoas Santo Antônio dos Anjos, Imaruí e Mirim, em Laguna, esconde o segredo de um dos produtos mais cobiçados da gastronomia nacional: o Camarão Laguna.
A combinação entre a água doce dos rios e a salgada do Oceano Atlântico cria um ambiente de água salobra que dá ao crustáceo um sabor marcante e uma textura firme, características únicas que o diferenciam de qualquer outro.
A geografia das lagoas também joga a favor da qualidade. Por serem rasas, com menos de dois metros de profundidade, as águas aquecem mais rápido, o que acelera o crescimento das espécies nativas, como o cobiçado Camarão Rosa e o abundante Camarão Branco.
A tradição das luzes e do "aviãozinho"
A colheita desse tesouro acontece entre os meses de dezembro e junho, sempre do anoitecer ao amanhecer. Quem passa pelas lagoas à noite se depara com um espetáculo visual: centenas de luzes flutuando sobre a água. Essas luzes fazem parte da técnica do "aviãozinho", a única permitida na região.
Diferente da pesca de arrasto, que é proibida no complexo, o aviãozinho utiliza redes em formato de cone presas a estacas de madeira.
Como o camarão é sensível à luz, ele é atraído pelas lanternas acopladas às redes e acaba entrando naturalmente nas armadilhas, garantindo uma captura mais sustentável e preservando o estoque pesqueiro.
Além da qualidade do produto, Laguna é famosa mundialmente por um fenômeno raro: a parceria entre pescadores e botos. Há mais de 140 anos, golfinhos-nariz-de-garrafa ajudam os humanos a cercar os cardumes.
Estudos científicos comprovam que essa sincronia é benéfica para ambos, resultando em mais peixes e camarões na rede e na boca dos animais. Essa tradição não é genética, mas sim um saber cultural ensinado de geração em geração, tanto pelos pescadores quanto pelos próprios botos.
A pesca do camarão é o sustento de milhares de famílias. Estima-se que Laguna tenha cerca de 3.300 pescadores artesanais ativos, sendo que 2.000 deles se dedicam exclusivamente ao camarão. A atividade movimenta toda uma cadeia que inclui desde feiras livres até restaurantes de alto padrão.
Atualmente, menos de 20% do camarão consumido no país vem da pesca artesanal, o que transforma Laguna em um polo de resistência dessa cultura.
O prestígio é tão grande que o nome "Camarão Laguna" é frequentemente usado de forma indevida por comerciantes de outras regiões para valorizar produtos que não têm a mesma origem, provando o valor simbólico e econômico dessa iguaria sul-catarinense.
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