UEFA ameaça boicote, Concacaf e AFC rejeitam iniciativa, enquanto Conmebol pede esclarecimentos e CAF avalia projeto do presidente da entidade
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A proposta da FIFA de criar uma nova empresa para administrar oportunidades comerciais ligadas às suas competições provocou uma crise no futebol mundial. O projeto, chamado FIFA Forward Enterprise, prevê a entrada de investidores privados em uma estrutura que teria participação nas receitas de torneios como a Copa do Mundo.
A FIFA permaneceria como controladora da empresa, mas poderia negociar uma participação de até 20% com investidores externos. A entidade argumenta que a iniciativa permitiria aumentar os recursos destinados às 211 associações filiadas. Em resposta às críticas, afirmou que “ninguém está vendendo o futebol” e que a proposta somente avançará após um processo de consulta.
A reação mais dura partiu da União das Associações Europeias de Futebol, a UEFA. Durante uma reunião emergencial virtual, com aproximadamente duas horas de duração, representantes das 55 federações europeias manifestaram oposição ao projeto. A decisão de ameaçar um boicote às competições da FIFA foi aprovada por unanimidade.
A UEFA criticou a falta de transparência na elaboração da proposta e demonstrou preocupação com a possibilidade de interesses financeiros influenciarem a organização dos torneios. Segundo a confederação, a entrada de investidores poderia aumentar a pressão pela criação de novas competições, pela ampliação dos torneios existentes e pela realização de mais partidas.
A entidade europeia informou que suas seleções não participarão de competições organizadas pela FIFA enquanto a proposta permanecer em discussão. Para suspender o boicote, a UEFA exige que o plano seja totalmente abandonado e que sejam apresentadas garantias de que a governança e os torneios da FIFA não serão abertos à participação privada.
Entre as primeiras competições que podem ser afetadas estão a Copa do Mundo Feminina Sub-20, na Polônia; o Mundial Feminino Sub-17, no Marrocos; a Copa do Mundo Sub-17 masculina, no Catar; a Copa das Campeãs Femininas da FIFA, em Miami; e a Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil. Caso o conflito permaneça, a participação europeia no Mundial masculino de 2030, organizado por Espanha, Portugal e Marrocos, também poderá ser comprometida.

A Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe, a Concacaf, também rejeitou a proposta, embora não tenha anunciado um boicote. A entidade demonstrou preocupação com a falta de análise e aprovação prévia pelos órgãos responsáveis pela governança da FIFA.
A Confederação Asiática de Futebol, a AFC, pediu uma revisão urgente dos processos de governança e tomada de decisões da FIFA. Segundo a entidade, propostas com impacto global precisam ser desenvolvidas com transparência, consulta adequada, participação das associações e supervisão dos órgãos estatutários.
Na América do Sul, a Conmebol adotou uma posição mais cautelosa. A entidade afirmou que o futebol, seus valores, torcedores e tradições devem permanecer acima de qualquer interesse comercial ou financeiro. A confederação informou que iniciou consultas com suas associações filiadas e convocará uma reunião do Conselho para analisar o projeto.
A Conmebol também solicitou à FIFA informações adicionais sobre o alcance, a estrutura, a governança e os possíveis impactos da FIFA Forward Enterprise. Diferentemente da UEFA, porém, a entidade sul-americana ainda não anunciou oposição formal nem ameaça de boicote.
A Confederação Africana de Futebol, a CAF, também não apresentou uma posição definitiva. O presidente Patrice Motsepe convocará uma reunião do Comitê Executivo para avaliar a proposta, enquanto as associações africanas foram orientadas a analisar o projeto e participar do processo de consulta.
No comunicado, a CAF destacou que pretende continuar trabalhando com a FIFA e as demais confederações para ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol na África e em outras regiões. A manifestação indica que a entidade ainda avaliará os possíveis benefícios financeiros e os impactos do projeto antes de tomar uma decisão.
A pressão também aumentou dentro da própria FIFA. Carlos Cordeiro, assessor sênior de Infantino, renunciou ao cargo em protesto contra a iniciativa. Ex-banqueiro e antigo dirigente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, ele afirmou que não participou da elaboração da proposta e classificou o projeto como um mau negócio para o futebol e para o futuro da modalidade.
O diretor de operações da FIFA, Kevin Lamour, também criticou a condução do processo. Segundo ele, funcionários da entidade foram mantidos sem informações sobre os planos. Lamour classificou a proposta como o projeto de uma única pessoa e cobrou uma reação dos dirigentes do futebol mundial.
Na prática, a ameaça de boicote pode inviabilizar a proposta. Sem seleções europeias, competições como as Copas do Mundo perderiam parte significativa de seu valor esportivo, comercial e de audiência. Na última edição do Mundial, seis das oito seleções que chegaram às quartas de final eram da Europa, incluindo três semifinalistas e a campeã.

A FIFA ainda pretende continuar o processo de consulta, mas a oposição de UEFA, Concacaf e AFC, a cautela demonstrada por Conmebol e CAF e as críticas internas aumentam a pressão para que Infantino retire ou reformule a proposta.
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