Enquanto o país continua celebrando antigas conquistas, resultados históricos negativos mostram que a renovação foi negligenciada.
O Brasil ainda gosta de se apresentar como uma potência do vôlei masculino. As medalhas, os títulos mundiais e as gerações históricas continuam sendo lembrados como provas de uma grandeza que ninguém pode apagar. O problema é que o passado já não entra mais em quadra. Enquanto o país celebra Giba, Serginho, Ricardinho, Bruninho e tantos outros, a seleção atual acumula eliminações que antes pareciam inimagináveis.
A queda na Liga das Nações de 2026 não foi um acidente. Também não foi apenas uma sequência de partidas ruins. O nono lugar e a eliminação antes da fase final representam mais um aviso de que o Brasil deixou de ser presença garantida entre as principais seleções do mundo. Considerando também a antiga Liga Mundial, o país não ficava fora da etapa decisiva desde 1991.
A questão, portanto, não é apenas saber por que o Brasil perdeu. A pergunta mais desconfortável é outra: por que tanta gente ainda se surpreende?
Os sinais estão visíveis há anos. Em 2023, a seleção perdeu o Campeonato Sul-Americano para a Argentina, encerrando uma hegemonia histórica. Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, terminou na oitava colocação e ficou fora das semifinais pela primeira vez no século. Em 2025, foi eliminada na primeira fase do Campeonato Mundial e registrou a pior campanha brasileira na história da competição.
Quando resultados ruins deixam de ser exceção e passam a se repetir, já não existe espaço para chamar tudo de azar, transição ou falta de entrosamento. O Brasil vive uma crise. Talvez ainda não seja uma crise de popularidade, porque a Superliga continua atraindo público e movimentando torcedores. Mas é uma crise técnica, estrutural e, principalmente, de formação.
Durante muitos anos, as vitórias da seleção adulta esconderam os problemas que surgiam abaixo dela. Enquanto os veteranos continuavam conquistando medalhas, o país não percebeu, ou preferiu não perceber, que a reposição já não acontecia na mesma velocidade. O Brasil venceu tanto que começou a acreditar que os grandes jogadores simplesmente continuariam aparecendo.
Não continuaram.
A última conquista brasileira no Campeonato Mundial masculino sub-21 ocorreu em 2011. Desde então, o país passou a revelar menos jogadores capazes de chegar à seleção principal e assumir imediatamente o protagonismo. Isso não significa que a geração atual seja formada por atletas ruins. O problema é que existem bons jogadores sendo cobrados para ocupar espaços que antes pertenciam a nomes extraordinários.
O Brasil perdeu profundidade. Nas melhores gerações, havia jogadores de alto nível dentro da quadra, no banco e até fora das convocações. A concorrência obrigava cada atleta a manter o rendimento. Hoje, quando um titular não funciona, muitas vezes a alternativa disponível também está em formação, possui pouca experiência internacional ou atravessa o mesmo momento de instabilidade.
Também existe uma contradição no caminho escolhido por alguns jovens. Atletas saem cedo da Superliga em busca de contratos mais lucrativos na Europa, mas acabam passando temporadas como reservas. Treinam em ambientes competitivos, convivem com grandes jogadores e recebem salários maiores, porém entram pouco em quadra. Depois, chegam à seleção sem a experiência de decidir partidas e são cobrados como se estivessem prontos.
É difícil desenvolver uma geração quando os jogadores precisam aprender a suportar a pressão justamente vestindo a camisa da seleção brasileira.
Nesse cenário, Bernardinho voltou a ocupar o papel que o vôlei nacional conhece bem: o de homem chamado para resolver tudo. A presença dele aumenta a cobrança, recupera a disciplina e transmite a sensação de que existe alguém no controle. Mas nem mesmo um dos maiores treinadores da história consegue criar, em poucos meses, os atletas que deveriam ter sido preparados durante anos.
Transformar Bernardinho em salvador também é uma maneira conveniente de fugir do problema. Caso a equipe melhore, o sistema será preservado. Caso continue perdendo, a responsabilidade cairá sobre o treinador e os jogadores. Enquanto isso, as falhas na formação, na transição das categorias de base e no aproveitamento dos jovens continuarão praticamente intocadas.
O bronze conquistado na Liga das Nações de 2025 mostra que o Brasil ainda consegue competir. Não se trata de uma seleção incapaz. O que falta é regularidade, liderança e força para reagir quando uma partida foge do controle. O time pode derrotar grandes adversários em um dia e desaparecer diante da pressão no seguinte. Uma potência de verdade não pode depender permanentemente de momentos isolados de inspiração.
O Campeonato Sul-Americano, que será disputado no Maracanãzinho, ganhará uma importância que antes pareceria exagerada. Além da rivalidade continental, estará em jogo uma vaga nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Para uma seleção acostumada a pensar em medalha olímpica, ter de encarar a classificação como motivo de preocupação já demonstra o tamanho da queda.
A maior ameaça ao vôlei masculino brasileiro talvez não seja a Argentina, a Polônia, a Itália ou qualquer outra seleção. É a ilusão de que o país continua no topo apenas porque já esteve lá.
A era de ouro terminou faz tempo, mas isso não significa que os dias de glória não possam voltar. O Brasil ainda possui tradição, clubes competitivos, bons treinadores e uma torcida apaixonada pela modalidade. Existe uma estrutura capaz de sustentar uma reconstrução, desde que os problemas sejam reconhecidos e o trabalho de renovação seja tratado como prioridade.
Agora, resta torcer para que, aos poucos, uma nova safra de jogadores ganhe espaço, experiência e confiança para vestir a camisa da seleção. A recuperação pode não ser imediata, mas o vôlei brasileiro já mostrou outras vezes que sabe se reinventar. Que uma nova geração seja formada e que os tempos de conquistas voltem a fazer parte não apenas das lembranças, mas também do presente.

Esporte
Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.