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Vinícios Redivo
06/07/2026 20h18

Gigantes fora da festa: por que os países mais populosos não chegam à Copa?

 

 

Assista a qualquer transmissão da Copa do Mundo de 2026 e é bem provável que você veja bandeiras da Argentina, e também do Brasil, tremulando em lugares onde, tecnicamente, quase nenhum argentino ou brasileiro mora. Em Dhaka, capital de Bangladesh, torcedores tomaram as ruas para celebrar como se fossem parte da Albiceleste quando Messi balançou a rede contra a Argélia. Cenas parecidas também se repetiram em cidades da Índia e da Indonésia.

 

 

O caso de Bangladesh, aliás, merece atenção especial. O país virou um dos fenômenos mais curiosos do futebol mundial. Reportagens da imprensa brasileira já apontaram que milhões de bangladeshianos torcem pelo Brasil, fazendo do país uma das maiores concentrações de admiradores da Seleção fora do território brasileiro. A paixão nasceu ainda nos anos 1970 e hoje divide ruas, famílias e bairros entre verde e amarelo de um lado e azul e branco do outro. O apoio à Argentina, impulsionado por Messi e pelo título no Catar em 2022, cresceu ainda mais nos últimos anos.

 

 

O motivo por trás dessa “adoção” é simples e, ao mesmo tempo, incômodo: as seleções desses países não estão na Copa. E não estamos falando de nações pequenas. Dos dez países mais populosos do planeta, apenas dois, Brasil e Estados Unidos, participaram o torneio atual. Rússia e Nigéria já passaram por várias edições, mas ficaram fora desta vez. Índia, Bangladesh, Etiópia e Paquistão nunca disputaram uma Copa, embora a Índia tenha se classificado para 1950 e desistido antes da estreia. China e Indonésia têm apenas uma participação cada uma, ambas distantes no tempo.

 

 

A pergunta, então, parece óbvia, mas não é: por que ter muita gente não garante ter uma boa seleção?

 

 

Gente não é tudo

 

 

A lógica mais simples diria que quanto maior a população de um país, maior o número de jogadores em potencial. E, de certa forma, isso faz sentido. Sete das oito seleções campeãs mundiais, Brasil, Argentina, Alemanha, Itália, França, Inglaterra e Espanha, vêm de países com populações relativamente grandes. A exceção é o Uruguai, que ajuda a entender melhor essa história.

 

 

Só que população, sozinha, explica muito pouco. A BBC conversou com o economista britânico Stefan Szymanski, um dos autores do livro Soccernomics, referência em análise de dados aplicada ao futebol. Para ele, o esporte funciona de maneira parecida com uma economia: precisa de gente, mas também de capital, infraestrutura, centros de treinamento, captação de talentos e organização.

 

 

Há ainda a questão da renda. Segundo cálculos de Szymanski e Simon Kuper, historicamente um país precisaria de uma renda média per capita em torno de US$ 15 mil por ano para começar a conquistar títulos. O problema é que essa conta não fecha completamente para Brasil e Argentina, que somam oito Copas do Mundo mesmo com rendas médias abaixo desse patamar.

 

 

É aí que entra outro ingrediente: bagagem histórica. As seleções que dominam o futebol mundial são, em boa parte, as mesmas que já jogavam e competiam em alto nível há um século. Começar cedo também conta.

 

 

A vantagem de quem começou antes

 

 

Divulgação: Sky Sports

 

 

O Uruguai é o melhor exemplo. Com apenas 3,5 milhões de habitantes, o país tem duas Copas do Mundo, conquistadas em 1930 e 1950. A seleção uruguaia disputou sua primeira partida internacional em 1902, doze anos antes do Brasil entrar em campo pela primeira vez como seleção. No futebol, décadas de bola rolando podem valer mais do que milhões de habitantes.

 

 

Já muitas seleções da África e do sul da Ásia passaram a ter estrutura esportiva mais consolidada apenas depois dos processos de independência do século 20. Isso criou uma espécie de atraso histórico. Algumas conseguiram encurtar essa distância. O Marrocos, independente desde 1956, chegou à semifinal da Copa de 2022, feito inédito para uma seleção africana. A Coreia do Sul, coanfitriã em 2002, também alcançou o top 4, algo que nenhuma outra seleção asiática repetiu.

 

 

Para países como Índia, Bangladesh e Indonésia, porém, esse atraso ainda pesa. E não se trata apenas de dinheiro. Falta uma cultura de formação consolidada, federações mais organizadas, ligas fortes, calendário competitivo e conhecimento acumulado ao longo de gerações.

 

 

Etiópia: falta estrutura

 

Divulgação: AFP/Getty Images

 

 

A Etiópia é outro exemplo claro. O país nunca disputou uma Copa e sua melhor chance veio nas eliminatórias para 2014, quando chegou à fase final africana, mas acabou eliminado pela Nigéria.

 

 

Hoje, o futebol etíope enfrenta problemas básicos de estrutura. A liga profissional do país disputou mais de 380 partidas nesta temporada usando apenas três estádios homologados, segundo Kifle Seife, diretor-executivo da competição. A própria seleção precisou mandar jogos das eliminatórias em Marrocos por falta de condições em casa. Antes de sonhar com Copa, é preciso ter onde treinar, jogar e desenvolver atletas.

 

 

O peso do críquete no sul da Ásia

 

Divulgação: AFP/Getty Images

 

No sul da Ásia, o futebol ainda enfrenta um concorrente poderoso: o críquete. A Índia é uma potência mundial na modalidade, e sua liga, a IPL, é a mais rica do planeta. O ex-jogador indiano Shyam Thapa avalia que muitas famílias de classe média e alta incentivam os filhos a seguir no críquete, atraídas pelo retorno financeiro e pela visibilidade do esporte.

 

 

Mas essa explicação não convence todo mundo. A atriz e torcedora bangladeshiana Audite Karim lembra que Austrália e Nova Zelândia também são potências no críquete e, mesmo assim, disputam Copas e evoluem no futebol. Para ela, no caso de Bangladesh, o problema principal não é o amor por outro esporte, mas a falta de preparação e estrutura.

 

 

O enigma chinês

 

Divulgação: BBC Sport/Getty Images

 

 

Talvez o caso mais intrigante seja o da China. Potência olímpica nas últimas décadas, o país nunca conseguiu transformar esse sucesso em força no futebol masculino. A seleção chinesa não disputa uma Copa desde 2002, mesmo após investimentos pesados a partir dos anos 2010, incluindo a chegada de jogadores estrangeiros famosos à liga local.

 

 

Para Mark Dreyer, especialista em futebol chinês que vive em Pequim, não há motivo técnico para a China não formar jogadores de nível mundial. O problema, na visão dele, está na interferência política excessiva em decisões que deveriam ser esportivas.

 

 

A Indonésia, por sua vez, disputou sua única Copa em 1938, ainda como Índias Orientais Holandesas. Nas eliminatórias para 2026, fez uma campanha mais competitiva, mas muito apoiada em jogadores nascidos na Europa e com ascendência indonésia. Ou seja, um avanço importante, mas ainda distante de uma formação local sólida.

 

 

Paquistão e Bangladesh tiveram campanhas modestas nas eliminatórias asiáticas, sem vencer nenhum dos seis jogos disputados. O Paquistão ainda carrega um histórico recente de suspensões da Fifa por conflitos políticos internos em sua federação.

 

 

No fim, sobra a torcida

 

Divulgação: Reprodução/GE

 

Para milhões de torcedores desses países, a Copa continua sendo uma festa de vizinho, mas uma festa impossível de ignorar. Bangladesh talvez seja o retrato mais bonito e mais dolorido disso: um país que vive intensamente o Mundial, mesmo sem nunca ter visto sua própria seleção entrar em campo no torneio.

 

 

A Copa mostra que, no futebol, multidões não bastam. População impressiona e paixão ajuda, mas sem estrutura, gestão, formação de atletas e tradição competitiva, até os países gigantes continuam do lado de fora, assistindo à festa pela televisão.

 

Coluna baseada em reportagem original de Fernando Duarte, para a BBC World Service, com informações adicionais de Metrópoles, Terra e Diário Online sobre a torcida de Bangladesh pelo Brasil.

Vinícios Redivo

Esporte

Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.

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