A primeira Copa do Mundo com 48 seleções nem tinha terminado a fase de grupos e já reacendeu um debate que promete se arrastar até a decisão sobre o formato de 2030: dá para o Mundial crescer ainda mais?
Os números da edição atual jogam a favor de quem defende o inchaço. Recordes de público, média de gols alta, um número inédito de seleções estreantes avançando de fase. Tudo isso reforça o discurso da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), que desde o ano passado insiste na ideia de um torneio com 64 equipes já na próxima Copa, marcando o centenário da competição.
O problema é que a proposta nasce de um acordo político, não de um consenso técnico. A candidatura conjunta de Argentina, Paraguai e Uruguai perdeu a disputa pela sede principal de 2030 para Espanha, Marrocos e Portugal, e a compensação foi ceder a cada país sul-americano uma partida de abertura, em homenagem ao Mundial de 1930. A ideia dos 64 times seria o passo seguinte, ampliando de três para 18 o número de jogos disputados na América do Sul, com um grupo inteiro sediado em cada um dos três países.
Quem topa e quem não topa
A resistência é generalizada. Concacaf e a confederação asiática já se posicionaram contra. A Uefa, a mais influente das seis confederações, rejeita o modelo por razões logísticas e, na prática, já seguiu em outra direção: em maio anunciou um novo formato de classificatórias europeias inspirado no modelo de liga da Champions.
Curiosamente, a maior barreira interna está dentro da própria Conmebol. As eliminatórias sul-americanas, com seus 18 jogos de ida e volta entre todos contra todos, são hoje uma fonte relevante de receita para as federações do continente por causa da venda de direitos de transmissão. Se o número de vagas diretas da Conmebol aumentar (hoje são seis vagas diretas mais uma de repescagem para dez seleções), o campeonato classificatório perde parte do apelo comercial. E com Argentina, Paraguai e Uruguai já garantidos por serem sedes, fica ainda mais difícil manter a competitividade das eliminatórias atrativa. Por isso já se discute internamente a criação de uma Liga das Nações sul-americana, com premiação própria, para dar algum incentivo extra às seleções que garantirem vaga antecipada.
Um exercício de simulação
Não existe hoje nenhuma distribuição oficial de vagas para uma Copa de 64 seleções. A Fifa só definiu a repartição para o formato de 48, em vigor: 8 vagas para a AFC, 9 para a CAF, 6 para a Concacaf, 6 para a Conmebol, 1 para a Oceania e 16 para a Uefa, além de duas vagas via repescagem intercontinental.
Mas é possível fazer um exercício hipotético de como ficaria a partilha num cenário de 64 times, seguindo a mesma lógica de proporcionalidade usada na expansão para 48. Num modelo sem repescagem, com todas as vagas diretas, a Uefa passaria de 16 para 22 vagas, a CAF de 9 para 13, a AFC de 8 para 11, e Concacaf e Conmebol saltariam de 6 para 8 cada uma, enquanto a Oceania ganharia sua segunda vaga direta, de 1 para 2. Num segundo modelo, que preservasse a repescagem intercontinental com duas vagas, a distribuição ficaria bem parecida, só que com uma vaga direta a menos para Concacaf e Conmebol, que ficariam com 7 cada.
São só exercícios hipotéticos, sem qualquer respaldo oficial da Fifa, que sequer chegou a debater o tema formalmente em sua última reunião de conselho, apesar de a proposta ter sido colocada em pauta. Mas ajudam a visualizar o tamanho do impacto: a Europa sozinha ficaria perto de um terço das vagas diretas em qualquer um dos dois modelos, enquanto a Oceania, historicamente cotista única, poderia enfim ter dois representantes.
Como ficaria o formato
Do ponto de vista estrutural, o caminho mais natural seria repetir a lógica de grupos de quatro times, só que em maior escala: 16 grupos, com os dois primeiros de cada um avançando direto para os mata-matas, sem a complicação dos "melhores terceiros colocados" que caracterizou a estreia do formato de 48. A fase de grupos passaria de 72 para 96 partidas, e o total do torneio saltaria para 128 jogos, praticamente o dobro do padrão histórico de 64 partidas que vigorou entre 1998 e 2022. O campeão, no entanto, ainda disputaria oito jogos: três na fase de grupos, mais dezesseis avos, oitavas, quartas, semifinal e final. É o mesmo número de partidas que o campeão já disputa no formato de 48 seleções estreado agora, que adicionou justamente essa fase extra de dezesseis avos em relação ao modelo de 32 times, vigente até 2022, quando o vencedor jogava sete partidas.
O que vem pela frente
Por ora, o cenário mais provável é que a Copa de 2030 seja disputada com o mesmo formato de 48 seleções estreado neste ano, com a novidade sendo apenas os três jogos de abertura na América do Sul. A ampliação para 64 segue como bandeira quase solitária da Conmebol, sem força suficiente dentro do Conselho da Fifa para virar realidade, pelo menos não na próxima edição.

Esporte
Vinícios Miranda Redivo, 20 anos, natural de Tubarão. Formado em Técnico em Marketing pelo Senac Tubarão e estudante de jornalismo na Faculdade Uniasselvi. Integrante do Grupo Hiper de Comunicação, tem o esporte como paixão e aposta no jornalismo esportivo como caminho profissional. Nesta coluna, traz semanalmente um olhar sobre o mundo esportivo, das quadras e pistas da Região da Amurel aos palcos do esporte nacional e internacional.